terça-feira, 3 de julho de 2007

Sérgio Buarque e a fracassada mentalidade brasileira

Sérgio Buarque de Holanda fez uma excelente análise do caráter brasileiro.

Somos o homem cordial, e por cordial se quer dizer "do coração".

Isso implica que nossas relações são profundamente moldadas pela emoção ao invés da razão. Os laços de amizade e familiares são mais fortes em todas as nossas relações públicas que os laços INSTITUCIONAIS.

Daí a origem do estado brasileiro como uma rede de apadrinhados, como essencialmente paternalista e clientelista.

Não valorizamos o mérito, mas se o cara é "gente boa", como a tradicional figura do "malandro", que não trabalha, vive das costas dos outros, mas que todo mundo conhece e é "sangue bom". Coincidência?

Preferimos burocracias "quentes" a burocracias "frias", mas que funcionem: "conheço um cara lá dentro que resolve pra vc". Somos o país dos despachantes.

Muito bom ter burocracias "quentes"... nossas relações são amigáveis, o brasileiro é afável, e nos orgulhamos disso. No entanto, é bom quando se conhece alguém lá dentro... mas quando se é um zé-ninguém sem simpatia nem amizades... a vida é o inferno que vemos nas filas das repartições.

E não só no estado brasileiro, profissionalmente o brasileiro é amador, não cumpre prazos, não possui métodos de cobrança impessoais, é avesso à matemática, à técnica, à leitura e a padronizações de produção.

Pode-se dizer, é preguiçoso mesmo, não vê o trabalho como valor em si, como disse o sociólogo. Já ouviu falar do jeitinho brasileiro? Existe uma diferença enorme entre os países de tradição protestante e os de tradição católica baseada nessa valoração do trabalho e a visão da riqueza como mérito, e não demérito, como ocorre na mentalidade católica (antes de mais nada gostaria de dizer que sou ateu).

Claro q vão me aparecer inúmeros se ufanando dessas características, afinal, são a alma nacional... o orgulho nacional... e são elas a causa da nossa miséria.

Disso tenho algo a concluir: não se é subdesenvolvido à toa.

Acusa-se as elites, a classe política, o imperialismo, etc, etc. Acho que essas acusações também fazem parte da insistência do brasileiro em não assumir suas responsabilidades. Tudo é culpa dos outros, a “elite” nada mais é que “o outro”. Quem se poderia chamar de elite não se assume como tal, e eles mesmos são os primeiros a acusar “a elite”. “Eles” são os primeiros? Ou nós?

Ora, o problema brasileiro é exatamente não ter uma elite que se assuma como tal. O chavão “as elites” foi criado por ninguém menos que integrantes dessas elites.

O que nos falta é nos assumirmos como elite, elite no sentido de responsáveis pelos rumos do país. Enquanto considerarmos elites “os outros”, continuaremos nos lamentando da nossa sina miserável. Não preciso dizer que qualquer um com condições de utilizar um computador e participar dessa comunidade certamente faz parte da elite. Senão econômica, intelectual.

A mania de se atribuir a responsabilidade é conseqüência óbvia da mentalidade paternalista brasileira. Como disse nosso “glorioso” presidente, ele se vê como um grande “pai”. E também nós esperamos constantemente ser “salvos” por algo ou alguém, o salvador da pátria.

O atraso brasileiro está entranhado em algo muito mais profundo que esses bodes expiatórios tradicionais. Está na própria mentalidade brasileira, perpassando todas as classes, regiões, cores e idades.

O que são as elites ou a classe política senão simples produto da cultura nacional? A maldição brasileira está na tradição ibérica, personalista, assim como a dos latino-americanos em geral...


A América Latina é povoada de "salvadores da pátria", grandes "pais". Basta ver os caudilhos, o peronismo e a última piada sem graça da região, Hugo Chavez, um bufão populista...

Em nenhum lugar do mundo o populismo personalista faz ou fez sucesso como por essas plagas... porque será?

É causa ou consequência da nossa miséria?

Com certeza consequência... em outros lugares e com outras mentalidades esses bufões não teriam espaço. Mas o árduo trabalho desses "salvadores da pátria" fez com que a personalidade latino-americana se afundasse ainda mais em seus próprios erros.

Compare os países de tradição ibérico-católica e os de tradição anglo-saxã e protestante. Vai uma bela diferença...

Webber já havia mencionado a condenação da riqueza em sociedades católicas e sua exaltação como mérito e virtude em sociedades protestantes.

Veja as ex-colônias anglo-saxãs e as ibéricas e compare.

Os EUA e a Austrália eram meras colônias, assim como nós. O liberalismo que sobrou nesses países nos condenou exatamente por nunca ter passado por nossas portas, e não pelo contrário.

Antes que me acusem de "neoliberal" e outros termos ditos pejorativos por essa parte do mundo, devo dizer que não sou liberal, mas como no Brasil qualquer tentativa de racionalidade econômica é chamada de "neoliberalismo", é assim que tenho que me definir.

Os países escandinavos possuem um bem-estar social fortíssimo por exemplo, e são sempre usados como exemplo contra o liberalismo, mas...........

Caso queiramos implementar reformas estatais de maneira a alcançarmos um bem-estar social escandinavo, seremos apedrejados como hiper-mega-ultra-neo-liberais por todos os lados; tanto à esquerda quanto à direita.

A velha discussão entre esquerda e direita no Brasil parece uma comédia.

A direita nada fez além de inchar o estado para seus próprios interesses e se utilizar para seus fins econômicos particulares através do intervencionismo estatal e do gasto descontrolado. Vide governos militares e afins.

A esquerda brasileira levou tal tradição estatal brasileira ao paroxismo da ideologia. O que antes era roubalheira agora possui desculpa ideológica. Temos um estado que cobra 40% do PIB em impostos e nos devolve serviços públicos de décima categoria.

E uns acusando aos outros de liberalismo... quando ambos são faces da mesma moeda que tornou o estado brasileiro uma finalidade em si, e não seus cidadãos.

Mais uma vez, veja a diferença entre países de tradição saxã e os países de tradição ibérica... nossos males são os mesmos dos nossos vizinhos latino-americanos.

Mas, na Europa, a Espanha já aprendeu a lição, enquanto Portugal está começando a engatinhar.

Nós nem isso fizemos e ainda estamos atrasados em relação ao resto.

Até hoje esperamos um "presidente de verdade". Como se um homem, um líder, fizesse milagres.

Como se não fossem insituições sólidas, decisões baseadas na técnica e na racionalidade, estruturas estatais enxutas e eficientes, legislação curta mas coerente, judiciário funcional, leis isonômicas e não a colcha de retalhos que temos, etc, etc, etc, que fizessem de um país uma nação decente... e sim um enviado que nos guiasse por sua simpatia e boa vontade para o olímpo das nações de primeiro mundo (queria evitar as coincidências dessa caricatura que traço com a visão que se faz do nosso atual presidente, mas é difícil - ele é um dos exemplos mais perfeitos que já vi do homem cordial, e daí a identificação do brasileiro para com ele... espero que pelo menos tenhamos aprendido a lição: simpatia, cordialidade e boa vontade não bastam...).

Posto isso, a mudança em nossas instituições pode ser o caminho mais rápido a várias conquistas, mas a mudança de uma mentalidade ancestral e entranhada em todos os níveis sociais demora décadas ou mesmo séculos.

Só o investimento em educação e o fomento à cultura de alto nível podem mudar um quadro tão desolador.

Não temos um único prêmio nobel e não temos a menor previsão de ter algum pelas próximas décadas.

O brasileiro deve aprender a valorizar a excelência no lugar de seus tradicionais laços de amizade e de sangue.

Sem isso nem tão cedo saímos da mediocridade...

Sem isso seremos sempre coadjuvantes...

A culpa é de nós mesmos, e da nossa fracassada mentalidade que nos permitiu apenas construir um país que não passa de um fiasco.

Um comentário:

Bartolomeu Barros Jr. disse...

Nielson, pareçe que estamos sintonizados na resposta certa para o terrível desastre da TAN. Acho importante divulgar essa idéia. Uma matéria da uol.

Acidente aéreo fez Brasil duvidar de si, diz jornal:

Um artigo publicado nesta sexta-feira no jornal alemão Berliner Zeitung diz que o Brasil passou a "se colocar em dúvida" desde o acidente com o Airbus A320 da TAM.

A reportagem fala do que chama a "eterna oscilação (brasileira) entre o sentimento de inferioridade e o otimismo em relação ao progresso", afirmando que a segunda metade da equação foi "abalada" pelo incidente.

"A idéia de progresso está na base da construção da identidade nacional brasileira", afirma o Berliner Zeitung, citando o mote nacional "Ordem e Progresso", contido na bandeira brasileira.

Mas o país de dimensões continentais e confiança no futuro entra em crise diante de um acidente que remete a lembrança à célebre frase - que ninguém sabe se foi mesmo dita pelo presidente francês Charles De Gaulle, segundo o jornal - de que "o Brasil não é um país sério".

"A catástrofe trouxe junto a (lembrança da) mediocridade geral, a incompetência", enquanto, nas palavras do deputado federal Fernando Gabeira reproduzidas pelo jornal, "o povo mesmo é uma abstração destinada a sofrer".

Ao mesmo tempo, diz o artigo, as responsabilidades pelo acidente são transferidas para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Não literalmente, avisa o jornal, por que não lhe cabe, mas "simbolicamente".

"O fracasso do Estado se torna assim personalizado." Já o jornal britânico The Independent publicou uma reportagem dizendo que "as autoridades brasileiras tentam resgatar o sistema de aviação civil do país da beira de um colapso total".

No título do artigo, o jornal diz que "o acidente aéreo gerou uma crise nacional para Lula".

"Mesmo antes do acidente, a confiança pública no sistema aéreo estava no menor nível de todos os tempos", afirma a reportagem.

"A frustração com atrasos infindáveis e cancelamentos estava disseminada."